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  Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior - ANDES-SN


Data: 26/11/2018

Bolsonaro indica defensor do Escola sem Partido para o MEC

Aos 75 anos, Ricardo Vélez Rodriguez foi indicado para assumir o ministério da Educação (MEC) a partir de janeiro. Nascido na Colômbia e naturalizado brasileiro, Rodriguez é graduado em teologia no Seminário Conciliar de Bogotá, mestre em filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e doutor em filosofia pela Universidade Gama Filho. Ele veio ao Brasil em 1972, como bolsista da Organização dos Estados Americanos (OEA). Docente aposentado da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em seu currículo Lattes consta que ele dá aulas na Faculdade Arthur Thomas de Londrina (PR). A faculdade, vendida há mais de um ano ao Grupo Positivo, não existe mais.

A indicação de Ricardo Vélez Rodriguez veio envolta em polêmica. Na semana que antecedeu a escolha de seu nome, outra opção para o MEC foi ventilada à imprensa: Mozart Ramos, assessor do Instituto Ayrton Senna e ex-reitor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Os apelos da bancada evangélica e o aval do astrólogo e escritor Olavo de Carvalho pesaram na decisão do presidente eleito. Na quinta-feira (22), Bolsonaro anunciou Ricardo Vélez Rodríguez, um conservador que celebra o Golpe Militar de 1964 e defende a censura nas instituições de ensino, como futuro ministro da Educação.

Inspirações quixotescas

Ricardo Vélez Rodriguez mantém um blog chamado “Rocinante”. O nome é uma alusão à obra Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes. No blog, o futuro ministro expressa suas posições sobre diversos “problemas” brasileiros e demonstra apoio a muitas das teses neofascistas defendidas por Bolsonaro e parte de seus seguidores. Também bajula o astrólogo brasileiro radicado nos Estados Unidos, Olavo de Carvalho, que é considerado um dos responsáveis pela sua indicação ao MEC.

Ricardo sustenta que não houve Golpe Militar em 1964, mas sim uma “revolução”: “64 foi uma Revolução, dessas institucionais que vingaram na tradição luso-brasileira. Como a vinda da Corte portuguesa para o Brasil, em 1808. Como o grito do 'fico' de 1822, pronunciado pelo Príncipe Regente”, afirma o futuro ministro da educação. “64, vale sim afirmá-lo, nos livrou do comunismo”, afirma em um texto publicado em 2017.

Rodríguez defende o Escola Sem Partido, projeto que busca censurar professores e impedir quaisquer debates sobre questões sociais e políticas em sala de aula. “É a tentação do ‘politicamente correto’ que se esconde hoje, por exemplo, nas propostas da ‘educação de gênero’ veiculadas pelos gramscianos e outros grupos de inimigos totalitários da liberdade. No nosso país essa mefistofélica proposta está ameaçando as famílias. É uma das desgraças herdadas do lulopetismo, hoje replicada pela esquerda metida a sabichona. Essa proposta conta, aliás, com fortes aliados pelo mundo afora, inclusive dentro da Organização das Nações Unidas, onde a esquerda internacional tem os seus tentáculos”, diz, reforçando teorias da conspiração que fingem acreditar que o mundo estaria sendo dominado por uma suposta esquerda gramsciana.

Por diversas vezes, Ricardo critica o que considera ser “ideologia de gênero” e, assim como o embaixador indicado por Bolsonaro para assumir o Itamaraty, rejeita o “globalismo”. No texto em que comemora sua nomeação ao MEC, Ricardo Vélez Rodriguez repete que os “governos petistas imprimiram ao país [...] uma tresloucada oposição de raças, credos, nós contra eles”. O futuro ministro também já expressou seu apoio à Reforma do Ensino Médio.

Política para a educação

Além de defender a censura nas escolas, o futuro ministro já deu pistas de quais serão suas primeiras tarefas no MEC. Em seu blog, ele cita o lema bolsonarista “Menos Brasília, mais Brasil” para defender a transferência da responsabilidade da educação pública para os municípios.

Atualmente, os municípios são responsáveis apenas pela educação infantil, ficando o restante da educação básica a cargo dos estados. A divisão de responsabilidade entre os entes está prevista na Constituição Federal desde 1996. À época, a Emenda Constitucional (EC) 14 incluiu na Carta Magna artigos nos quais explicita quais os papéis de estados e municípios para a educação básica.

Em carta pública divulgada na sexta-feira (23), Ricardo também cita a importância da educação manter os valores conservadores. “Pretendo colocar a gestão da Educação e a elaboração de normas no contexto da preservação de valores caros à sociedade brasileira, que, na sua essência, é conservadora e avessa a experiências que pretendem passar por cima de valores tradicionais ligados à preservação da família e da moral humanista”, afirmou o futuro ministro.

Erlando Rêses, 3º tesoureiro do ANDES-SN, avalia que a indicação de Rodríguez ao MEC responde a três setores fundamentais que compõe a base inicial de sustentação do futuro governo Bolsonaro: os militares, os evangélicos e o astrólogo Olavo de Carvalho.

“Um dos trunfos de Ricardo é a indicação feita pelo Olavo de Carvalho. Esse ministro também está extremamente afinado com as bases do projeto Escola Sem Partido. Ele critica a ‘ideologia de gênero’ e defende o controle dos livros didáticos e do que se fala nas escolas, e isso o deixa sintonizado com a bancada evangélica. O perfil do novo governo é de teocracia evangélica, orientado pela Frente Parlamentar Evangélica, que bancou o nome desse ministro. Os nomes lembrados antes dele não tinham muita afinidade com essa pauta, eram mais ‘moderados’. E o Ricardo ainda é professor emérito da escola de elite do Exército, o que também o aproxima da base militarista do futuro governo”, comenta o docente.


Fonte: ANDES-SN


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