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  Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior - ANDES-SN


Data: 17/12/2018

Seminário do ANDES-SN debate políticas e condições de trabalho no Ensino à Distância

Políticas públicas, financiamento, gestão, condições de trabalho e formação de professores no Ensino à Distância (EAD) foram alguns dos temas debatidos no Seminário Nacional de EAD do ANDES-SN. O evento ocorreu nos dias 8 e 9, na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), cumprindo as resoluções do 37º Congresso da entidade. O seminário teve o objetivo de debater pautas importantes para os docentes que trabalham nesta modalidade. 

A primeira mesa, realizada no sábado (8), debateu “Políticas Públicas de Ensino a Distância no Brasil”, com as expositores Allan Seki da Universidade Federal de Santa Catarina (Ufsc) e Raquel Moraes, da Universidade de Brasília (UnB).

Segundo Raquel Moraes, o ensino à distância no Brasil segue a lógica privatista. “Essa economia do conhecimento não é para todos, é para uma elite que estuda em universidades que desenvolvem a produção do conhecimento. Para quem não é elite, o ensino superior é voltado para as áreas de serviço”, disse. “Temos que mudar essa lógica para que todos sejam produtores e compartilhadores de conhecimento”, completou.

Para Allan Seki, a expansão do EAD no setor privado tem sido uma política de Estado no Brasil. “O ensino à distância público serve como uma forma de expandir o EAD privado. O EAD tem se caracterizado como certificação de massa, agregando poucos recursos de mediação com conhecimento para os estudantes, e ocorrendo em um cenário extremamente mercantilizado. Grandes grupos controladores de matrículas na educação superior têm conseguido concentrar e centralizar capitais no ensino”.

Financiamento, Gestão e Avaliação

A temática “Financiamento, Gestão e Avaliação no EAD” foi apresentada pelos docentes Otaviano Helene, da Universidade de São Paulo (USP), e Juliana Melim, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

Otaviano avaliou que o grande problema do EAD no Brasil deve-se a sua implementação e ao seu crescimento no país. “No lugar de ser mais uma oferta de educação para as pessoas, ele acabou ocupando o espaço do ensino presencial”. Para ele, o EAD foi hiperdimensionado e não resolveu o problema quantitativo de formação de quadros profissionais do Brasil. O docente da USP citou também o alto índice de evasão dos cursos de EAD.

Para Juliana, o projeto de expansão do EAD de graduação no Brasil serve aos interesses do capital. “Esse modelo privatista de educação e a expansão do ensino superior vem ocorrendo, sobretudo, nas instituições privadas não universitárias”, disse.

Trabalho Docente, Organização e Luta

A última mesa “Trabalho Docente, Organização e Luta do(a)s Trabalhadore(a)s” contou com a presença de Rosemary de Oliveira da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)  e Leonardo Castro da Unirio. “Não que eu seja fervorosamente um defensor do EAD, mas eu acho que temos todas as condições de fazer com que esse ensino efetivamente democratize a formação superior, com ensino, pesquisa e extensão e fazer algo de qualidade”, afirmou Leonardo, que leciona no EAD há 18 anos.

Já Rosemary avaliou que o EAD vem se modificando nos últimos anos e tratando de questões como planejamento dos currículos e das atividades que demandam, atualmente, as competências do tutor, do professor coordenador e de todos os agentes que fazem parte da educação à distância. “São várias as críticas sobre a precarização do trabalho. Uma delas, por exemplo, diz respeito ao salário que é em forma de bolsa, por prazo determinado”.

Para a docente, apesar da precariedade das condições de trabalho dos docentes do EAD, existem professores debatendo essa modalidade, publicando artigos, dissertações e teses nessa aérea. “Além da luta pela melhoria do trabalho, no aspecto financeiro e de infraestrutura, é preciso mudanças na concepção curricular e do que é realmente a educação online e, ainda, o papel do tutor e do professor nesse cenário”, ressaltou.

Formação docente

No segundo dia do seminário (9), foi realizada, a mesa “Impactos do EAD na Formação do(a)s Professore(a)s”, com a presença dos docentes Carmenísia Aires, da UnB, e Olinda Evangelista, da Ufsc.

Carmenísia considera que o debate teve contribuições importantes e que é necessário aprofundar a discussão sobre EAD no âmbito do movimento docente. “Mostrei números e dados de matrículas em EAD e relacionei isso à formação desses estudantes. Falar em qualidade sem falar em formação não adianta. É necessário trabalhar mais a importância da formação em EAD, ter preparo, planejamento, saber dialogar com os estudantes. Não é pensar em venda de produtos, em mercado, como fazem os que implementam essa Reforma [do Ensino Médio]”, afirmou.

Segundo Olinda Evangelista, a grande oferta de licenciaturas EAD no Brasil está na esfera privada. Mas o problema é ainda maior. “Quem hoje concentra o maior percentual de matrículas na formação docente na modalidade EAD são as grandes escolas, que chamamos, provisoriamente, de financeirizadas”, explicou, citando a Kroton como a maior expoente dessa modalidade.

A docente explicou que esse nicho de mercado foi induzido pelo Estado. “Em 2003 a presença da EAD ocorria majoritariamente na esfera pública, nas licenciaturas, não chegando a 6% da oferta. Entre aquele ano e 2007, ela se constitui e, a partir de então, cresce exponencialmente. Em 2017, 46,8% das matrículas em licenciatura são em EAD, revelando o descompromisso da esfera pública com a formação consistente do magistério nacional”, disse.

Para a docente, a financeirização da formação docente mercantiliza as relações de tal modo que “a pessoa por trás da matrícula não tem importância”. “O que importa é o valor de compra e venda que a matrícula adquire na bolsa de valores. Não estamos falando de formação humana, estamos falando de certificação em massa”, afirmou.

Olinda sustentou que a apropriação da formação docente pelo capital financeiro não pode ser resolvida com o discurso de que “a EAD pode ser crítica ou de boa qualidade”, “porque essa qualidade está subordinada à lógica da financeirização”, disse.

A professora concluiu levantando um problema: o curso de pedagogia é responsável pela formação do professor que atuará na Educação Básica, nível pelo qual passa, sem finalizar, a maioria dos sujeitos que comporão a força de trabalho. “Se isso é verdade, podemos afirmar que interesses de classe burgueses subjazem à precarização e esvaziamento da formação docente no Brasil”, concluiu.

Logo após o debate, foi realizada a plenária de encerramento do Seminário Nacional de EAD do ANDES-SN.


Fonte: ANDES-SN


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